Quarenta a 50 pessoas, ajeitadas
em duros bancos de madeira na carroceria de um caminhão, rodando em estradas
esburacadas, quase intransitáveis, durante horas e até dias. Era assim no
Nordeste, e esse então “valioso” meio de transporte era o pau-de-arara. Em um
desses veículos, o Presidente da República, na época um jovem que ia trabalhar
em São Paulo, passou por Feira de Santana.
Pau-de-arara é um verbete, ou
uma expressão, por demais conhecida na região Nordeste e, provavelmente, em
outras, embora nesta parte do País seu significado maior esteja relacionado a
um meio de transporte rodoviário que sucedeu ao carro de boi, com extrema
vantagem e enorme importância para a população, em especial a rural, que
predominou, durante muito tempo, sobre a urbana. A expressão “pau-de-arara”
também é conhecida na linguagem policial, mas com uma conotação absolutamente
diferente.
Nas décadas iniciais do século
passado, quando ainda eram poucas e precaríssimas as estradas de rodagem do
País e, igualmente, a frota de veículos automotivos, os chamados
“paus-de-arara” tiveram papel fundamental no transporte de passageiros,
especialmente daqueles que viajavam com bagagem ou mercadorias. Sair do
interior de um pequeno município nordestino para ir a uma cidade fazer compras,
ver alguém ou resolver alguma questão era muito difícil. Não havia linhas de
ônibus, e os automóveis eram um privilégio de poucos, naturalmente pessoas de
alto poder aquisitivo.
Feira de Santana, exemplo de
progresso e expansão urbana, entre as décadas de 1930 e 1970 viveu intensamente
o transporte em pau-de-arara, em especial nos dias de segunda-feira, por conta
da realização da feira livre, quando era intensa a movimentação nas estradas
que ligavam diversas cidades da região e outras mais distantes à Princesa do
Sertão. Nesse contexto, vale lembrar a importância da Ponte Rio Branco, sobre o
Rio Jacuípe, inaugurada em 18 de março de 1917 e fundamental na interligação
com dezenas de municípios, incluindo os da Chapada Diamantina, o que só foi
modificado com a construção da Estrada do Feijão.
Nesse período, que precedeu o
surgimento das linhas de ônibus intermunicipais, os paus-de-arara tinham pontos
de estacionamento, o que facilitava a vida de quem queria viajar. Para Baixa
Grande, Ipirá, Mundo Novo, Itaberaba e cidades da Chapada Diamantina, o ponto
era a Praça Froes da Mota, que chegava a registrar cerca de uma dezena de
veículos. Ali, na década de 1960, ocorreu um estranho e raro acidente de grande
repercussão. Um pau-de-arara já estava pronto para sair com destino a Ipirá,
quando o botijão de gás de uma senhora que vendia acarajé explodiu. A “rodela”,
peça metálica do botijão, foi arremessada pela explosão e atingiu a cabeça de
um cidadão que estava sentado em um dos bancos do caminhão. Apesar da
distância, foi fatal. O passageiro teve morte imediata.
O cordelista Jurivaldo Alves
lembra que viajou dezenas de vezes de Baixa Grande para outras regiões e foi
assim que, posteriormente, terminou se fixando na Cidade Princesa. “Em 1962
viajei de Baixa Grande para Candeias em um caminhão Chevrolet 1962, pau-de-arara,
de Bianor Pomponet, que depois chegou a ter 42 Mercedes-Benz. Foi quando passei
pela primeira vez em Feira de Santana e me apaixonei. Falei: tenho que morar
aqui, e aqui estou”. O poeta repentista Francisco Pedrosa Galvão, o “Chico
Pedrosa”, cuja obra é conhecida nacionalmente, ressalta que o pau-de-arara foi
um fenômeno brasileiro de maior eclosão no Norte/Nordeste. Lembra que, em 1954,
aos 18 anos de idade, viajou de sua terra, Guarabira, na Paraíba, para
Ituiutaba, Minas Gerais, onde iria trabalhar.
“Foram mais de 12 dias de
viagem, com gente passando fome, dormindo dentro do mato, criança morrendo. São
cerca de 4 mil quilômetros de distância. Imagine isso nos bancos de madeira de
uma carroceria de caminhão apinhado de gente. Adultos, crianças, idosos, sacos
de mercadorias, água, comida, enfim, uma balbúrdia, mas era assim”. Pedrosa
destaca ainda que os paus-de-arara lotados carregavam de 40 a 50 pessoas. “Não
havia conforto porque os bancos de madeira eram duros e as estradas de terra,
cheias de buracos. No tempo de chuva ficavam intransitáveis; no verão era só
poeira”.
Um detalhe lembrado por
Jurivaldo é que até o Presidente da República viajou em pau-de-arara. “O
presidente Lula disse publicamente que, quando deixou Pernambuco ainda jovem
para trabalhar em São Paulo, passou por Feira de Santana em um pau-de-arara”.
Esse modal de transporte rodoviário tornou-se obsoleto e foi proibido
oficialmente pelo Governo, por questões de segurança e também pela modernização
do transporte de passageiros, mas, em Feira de Santana e em tantas outras
regiões, teve enorme importância e contribuição decisiva no processo de
crescimento. Em alguns municípios distantes, ainda se vê, ocasionalmente, na
zona rural, em estradas vicinais, caminhonetes transportando pessoas,
especialmente em romarias, mas os caminhões pau-de-arara há muito deixaram de
existir.
Por Zadir Marques Porto
Fotos: Divulgação ZMP
