Ser feirense (nascer em Feira de
Santana) e ser feireiro ou feirante (andar em feiras vendendo ou comprando) tem
um sentido de proximidade muito grande, levando-se em conta a origem do
município, nascido a partir de um pequeno movimento de comércio a céu aberto,
espontaneamente surgido pela conversão de vaqueiros, tropeiros e negociantes de
gado em um ponto aprazível para descansar ou se refazer das longas trilhas
percorridas, tanto de distantes regiões do estado da Bahia como de fora dele,
como Piauí, Minas Gerais e Goiás.
A feira livre do município é
parte viva da sua história, dela não sendo possível retirá-la, sob pena de
apagar seu nascedouro. Tão importante que, conforme a história, foi visitada
pelo Imperador Dom Pedro II, de algum modo interessado no rápido desenvolvimento
da comunidade de Santana dos Olhos D’Água, que já se mostrava promissora apesar
do pouco tempo de formação. No início do seu surgimento, a feira livre era
realizada no terceiro dia da semana — terça-feira —, e assim permaneceu por
quase três décadas até que, em 1854, não há exatidão sobre o motivo, passou a
ocorrer aos domingos.
A visita do Imperador Dom Pedro
II e sua comitiva, conforme a história, aconteceu em 1850, portanto antes dessa
mudança. O movimento comercial a céu aberto, tendo anexa a feira do gado,
reunia cerca de três mil pessoas, ou mais — quantitativo considerado expressivo
para a época —, impressionando favoravelmente o ilustre visitante, que teria
até mantido diálogo com um vaqueiro, inteirando-se de preços, origem dos
rebanhos e condições das estradas percorridas, consideradas horríveis e
desgastantes, tanto para os boiadeiros como para os animais, que perdiam peso
nos longos trajetos que chegavam a demorar semanas e até um mês inteiro. Em
1865, portanto há 161 anos, a feira livre ganhou calendário definitivo,
passando a ser realizada nas segundas-feiras.
Entre 1910 e 1920,
aproximadamente, na gestão do intendente Bernardino da Silva Bahia, que, dentre
outras medidas, abriu novas estradas beneficiando os distritos de Tanquinho,
Santa Bárbara e Bomfim de Feira (os dois primeiros hoje são municípios), houve
um desenvolvimento mais rápido e acentuado. A chegada da energia elétrica em
1926, mediante a instalação de um motor a óleo na intendência de Arnold
Ferreira da Silva, e a inauguração da estrada ligando Salvador a Feira, pelo
governador Góes Calmon, foram fatores determinantes para o progresso do
município e a inevitável expansão da feira livre.
Pode-se dizer que feira livre é
algo universal, sem data ou local de surgimento precisos, mas, no caso
específico de Feira de Santana, enraizada na sua história, esse movimento
começou a se expandir na Praça do Comércio — depois fragmentada em duas — Praça
da Bandeira, referenciada pelo Abrigo Predileto, e a Praça João Pedreira, onde
ficava o Abrigo Santana, que deu lugar a uma escultura. O crescimento inicial
em linha horizontal ganhou bifurcações laterais com capacidade de absorver
grande parte das ruas Sales Barbosa e Marechal Deodoro.
Mas esse movimento foi insuficiente e, no seu rápido agigantamento, a feira livre voltou à sua rota horizontal, ultrapassando a Avenida Senhor dos Passos e ingressando de forma voluntariosa e definitiva na Avenida Getúlio Vargas, criando novas bifurcações laterais onde isso fosse necessário. Como um perene e caudaloso rio, depois de uma tempestade, a maior feira livre do Brasil estendeu seus braços para os lados, ocupando trechos das ruas J.J. Seabra e Visconde do Rio Branco e, sem perder seu destino ou trajeto original, foi aportar, em linha reta, a quase dois quilômetros da sua nascente, na confluência com a Avenida Maria Quitéria.
Era impossível pará-la e, em
nome da modernização urbana, até hoje contestada por alguns, a solução foi um
audacioso projeto instituído em 1977 pelo prefeito José Falcão da Silva, que
transferiu a feira livre para o Centro de Abastecimento. Mas não foi o fim: a
metropolitana Princesa continua feirense e feireira. Na Estação Nova, Cidade
Nova, Tomba, Sobradinho e tantos outros bairros, o ‘espírito’ de vaqueiros,
mascates e boiadeiros garante a tradição.
Por Zadir Marques Porto
Fotos: Arquivo Carlos Bacelar

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